Em textos anteriores já exprimi o meu ponto de vista sobre algumas formas de nos relacionarmos com os outros. Se um relacionamento não é coisa fácil, fazê-lo através de afectos poderá parecer mais complicado, pois muitas vezes, interfere com o domínio do nosso inconsciente. Essa complicação resulta apenas da complexidade do ser humano. Todos nós somos pessoas singulares, e apesar de sermos iminentemente sociais, temos uma certa relutância em nos deixarmos tocar e por isso resistimos à proximidade dos outros, sobretudo se com eles não tivermos alguma afinidade mais ou menos profunda. É um pouco como se os outros quisessem entrar na nossa vida e pudessem passar a ter um certo domínio sobre nós, o que à partida poderá não ser uma boa opção. Naturalmente rejeitamos essa possibilidade e essa opção leva-nos à solidão. Lembro-me como foi importante na minha meninice e adolescência conviver com pais, avós, familiares e amigos que me incutiram a sã convivência a partir destes afectos. Isso permitiu-me vencer barreiras e sobretudo não ter medos perante a proximidade dos outros. Eles também podem dar e receber afecto. No entanto, os tempos vão mudando, e os tempos de hoje, são bem diferentes daqueles a que me refiro. Esta sociedade gere muito mal a proximidade e pior ainda gere os afectos. Tenho para mim, que, um abraço é uma forma de criar proximidade, e com isso, poder quebrar barreiras permitindo estabelecer novos diálogos e novas formas de estabelecer relação. Quantas pessoas existem que não têm ninguém que se aproxime delas ou só encontram violência e estigmas negativos perante o seu dia a dia? Há mais solidão encoberta que fome na boca. É que há muita gente com excelentes condições económicas mas não sabe dar um abraço e por isso também não se dispõe a recebê-lo. Ora como não são capazes de o dar até ridicularizam aqueles que o fazem. Estes tipos de comportamentos são cada vez mais frequentes e surgem como divórcios entre os membros da sociedade. O primeiro efeito é a solidão e o egoísmo. Ora isso cria distanciamento e medos, pois nunca sabemos como é que os outros irão reagir. Um abraço sentido e partilhado pode recuperar alguém ou até salvar vidas. Hoje em dia sentimos profundamente esses efeitos, razão pela qual, já existem movimentos que se preocupam com aqueles que não têm ninguém que lhes manifeste esse carinho e ternura. Existe um movimento chamado "Free Hugs Campaign" (Campanha dos Abraços Grátis) que teve início em 2004 através da ideia inicial de Juan Mann’s que propunha que os indivíduos oferecessem abraços em público a estranhos, mostrando cartazes que dizem “Free Hugs”. Se no início tiveram problemas com a polícia, neste momento o movimento já se encontra espalhado por muitas cidades e tem sido um grande sucesso. Vide Youtube e Youtube
Aníbal Carvalho
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